segunda-feira, janeiro 23, 2012

Tempo x Prioridade


De vez em sempre eu deixo essa minha casa abandonada. Não tem outro jeito. É assim. Já prometi mil vezes que daria mais atenção a essa casa, mas não consigo. Então de vez em quando venho aqui, releio, admiro, dou uma espanadinha e deixo. E me dou conta que isso não acontece só aqui. Em vários aspectos da minha vida também. O fator maior é tempo e prioridade. Muitas pessoas, inclusive eu, quando escuta alguém falando: não tenho tempo! Penso logo: tempo é prioridade, se você não teve tempo pra isso é porque não priorizou. E quando temos pelo menos dez prioridades num dia só, como foi no meu sábado? Algumas prioridades não consegui cumprir. Olhei para a minha agenda e não tinha um dos 10 compromissos que não fossem importantes. Não saí na sexta a noite para não cansar e acordar tarde. Acordei relativamente cedo para um sábado meu e fui pra rua tentar cumprir as prioridades. Voltei pra casa a noite já e ainda faltaram duas prioridades. Tempo é prioridade? É. Mas hoje em dia, com o horário que eu me coloco de trabalho, as prioridades se acumulam e não sobra tempo para priorizá-las. E tenho certeza que isso não acontece só comigo.
Depois eu fico me criticando, que eu sou preguiçosa, que não sou disciplinada. E assim vai gerando culpa e desestímulo. Preguiçosa? Como? Trabalho no mínimo 10 horas por dia. Não quero aplausos como eu vejo muita gente competindo quem trabalha mais para poder dizer que é ativa. Trabalho porque gosto e porque preciso. De qualquer forma está chegando o dia em que vou ter que rever meus horários. Não me sobra tempo durante a semana pra quase mais nada. Quando eu tenho tempo livre, ou estou cansada, ou tenho coisas de casa pra fazer, ou tenho restos de trabalho para estudar ou elaborar, ou quero ver filmes, sair com amigos, dançar, brincar com a Lola, dormir ou dormir ou dormir. E ainda quero ir na costureira, mandar consertar meu tênis que descolou, mandar emoldurar uns quadros, quero pintar outros que estou atrasada, quero arrumar minha casa, minhas coisas, os documentos que eram da mamãe, os meus, arrumar minha mala para a viagem que está próxima, quero organizar os dias que não vou estar aqui, quero organizar os dias que vou passar lá, ler sobre os lugars que quero conhecer, escolher onde eu quero ir...também tenho pelo menos 2 livros pra ler e 2 filmes pra ver com certa urgência. Quero ainda, aprender a tocar piano, fazer um curso de inglês, depois espanhol e depois italiano (pelo menos), fazer ginástica para me ajudar a emagrecer. Gostaria muito ainda de fazer yoga ou meditação, frequentar de novo o Centro Espírita, fazer massagem relaxante pelo menos uma vez por semana, conseguir fazer minha unha toda semana, manter a depilação em dia, manter o cabelo em dia, fazer uma limpeza de pele. E ainda tenho que levar o carro para fazer o orçamento da revisão e depois contratar a revisão e ficar sem carro por pelo menos um dia.E ainda planejo fazer algum trabalho voluntário. Adoraria fazer terapia de grupo com crianças em alguma creche e trabalhar em alguma comunidade elevando a autoestima para melhorar a cidadania. Ah! Também adoraria aprender a cozinha e plantar!
Com tudo isso, eis a questão: tempo é prioridade e para as prioridades precisa-se de tempo!

(não preciso dizer que é uma luta diária aplacar a ansiedade com tantas demandas. Estou conseguindo. Uma coisa de cada vez.)

terça-feira, julho 26, 2011

As vezes eu tenho a impressão que a vida é uma sucessão de dias em que vamos resolvendo o que surge para podermos continuar nela. Cansa. E muito.

sexta-feira, maio 27, 2011

Salvador


Salvador não é uma cidade de beleza óbvia. O mar é um adorno de óbvia beleza em todo lugar. O mar salva Salvador. Mas não é só o mar não. A cidade me conquistou logo na chegada. Na saída do aeroporto tem uma estradinha com um bambuzal que, juntos e emborcados, fazem um túnel aconchegante. Ao sair dele a paisagem não é bonita. Mas não importou. A conquista, às vezes dura um momento e teu coração fica preso para sempre. Assim aconteceu com a Lola quando, na primeira vez que a vi, ela inclinou a cabeça pro lado e mexeu as orelhas... ali e naquele instante, não teve mais jeito pra mim, ela me conquistou eternamente. Salvador foi assim, em um momento eu fui conquistada. Não importou mais nada o que eu vi ou o que aconteceu, pois eu já estava “cega”. O momento da minha conquista em Salvador foi justamente na saída do bambuzal, olhei para um lado e vi num muro uma inscrição: “A vida é muito mais do que seus olhos podem ver”. Ali eu me rendi. Ao ler essas palavras fui tomada por assalto de paixão pela cidade que me recebia com tão significativa mensagem, me convidando a ampliar os horizontes. E essa paixão continuou ao perceber que não é o mar que salva Salvador e sim a ARTE.



Que o povo é musical, todos já sabem. Que tem um gingado lindo de ver e de acompanhar, também. Que o sotaque é envolvente numa malemolência contagiante, quem já escutou, sentiu. Mas nunca, nunca imaginei uma cidade tão visualmente artística. Quase como uma sala decorada em que se aproveita todos os detalhes, Salvador me surpreendeu.


Existem terrenos baldios e sujos, existem casas destruídas e abandonadas, existe o feio na passagem, mas existe a arte em tudo que é lugar, mesmo nesses lugares. Em quase todos os terrenos baldios sempre tinha ou um desenho ou um mosaico numa parede. Na beira mar esculturas de ferro ficam a mercê do olhar de qualquer um. Numa outra calçada uma vaca feita de cera. E numa rua, as estátuas das gordinhas que, não sem uma espécie de identificação, me conquistaram.


Apaixonante...por onde eu passava sempre tinha um detalhe num muro (a grande maioria com desenhos, pinturas ou escritos), um morro com alguma instalação de arte. A lagoa com os orixás, até o mar estava adornado, cheio de navios.


Eu gostei...eu vibrei...me apaixonei por essas visões tão detalhistas...continuo dizendo, Salvador é uma cidade imensa, mas parece um apartamentinho decorado com todo esmero. Ao ponto de, no encontro de um morro com um viaduto, estar ali, pregado ao morro, um vasinho de cerâmica com flores, tal qual, numa salinha de estar. Estar bem. Me senti bem. Obrigada Salvador!

domingo, maio 08, 2011

Minhas 03 mulheres

Minha vida sempre foi e é permeada de mulheres com presença na vida e fortes. Não tenho como não aprender com elas todos os dias. São minhas irmãs, minhas primas, minhas tias, minhas amigas. Todas elas, sem exceção, marcam um canto da minha existência: por uma característica que eu adquiri, por um olhar que eu desvelei, por um sentimento que eu desenvolvi... minha vida é permeada por essas mulheres incríveis. Delas todas, 03 não estão mais aqui comigo. E deixaram uma ausência de forma muito presente, pois foram mulheres que preencheram a minha vida em diversos momentos e me deram o sentido da existência. Essas três mulheres, fortes, foram, em vida: a minha Avó Marisanta, a minha Madrinha Elizabeth e a minha Mãe Lourdinha. Elas me deram muito. Marcaram minha vida para sempre. Com elas aprendi muitos caminhos, muitas histórias... Com elas eu vivi momentos que eu serei eternamente grata.
Minha vó era uma mulher forte. Desde cedo passou por perdas inimagináveis à alguns. Lembro que, quando eu era menor, eu ficava contabilizando mentalmente todos os parentes que ela tinha perdido: perdeu os pais, depois o marido (do qual ficou viúva o resto da vida), perdeu um filho, depois irmãos, perdeu neto... vovó experimentou quase todas as perdas... mas mesmo assim ela não esquecia de si mesma e não se entregava a dor. Era uma mulher vaidosa, cheia de amigas, inteligente, organizada. Ela foi morar com a gente quando a mamãe se separou, foi ajudar sua filha na nova etapa de sua vida. E acabou que ajudou a nos criar. Eu dormi muitos anos ao lado da minha vó e por muitos anos, vovó deixava eu ficar de luz acesa, mesmo quando ela queria dormir, pois eu queria ler... ela sabia, do jeito dela, como estimular o que achava certo.
Ela me ensinou a bordar e com isso, a ter mais paciência para as coisas, ponto a ponto, irem sendo construídas, para que o bordado tomasse a forma perfeita que lhe cabia e com isso, me ensinou a persistir. Vovó me levava em suas reuniões de bordados, onde tive contato com freiras, com pessoas que bordavam para vender e assim poder doar para trabalhos de caridade. Desde cedo, ela me ensinou a generosidade e dar do próprio trabalho.
Vovó era organizada, queria ter herdado mais da sua organização, mas uma coisa eu herdei...lembro até hoje de todas as vezes em que eu criança, com muita vontade de comer gelatina, pedia dinheiro pra ir comprar e ela tirava de seu guarda-roupa uma bolsinha, com um envelope dentro e com toda a calma, tirava o dinheiro, escrevia atrás do envelope o valor e pra que era, e fazia suas contas. Eu, atualmente, me pego colocando dinheiro em envelope numa bolsa dento do meu guarda roupa. Igual. Vovó também me ensinou a dar valor a religiosidade e a força de ter fé. Lembro, até hoje, que quando morávamos no Banna e dormíamos juntos, ela me ensinou também a admirar a lua. Dormíamos de janela aberta e quando era noite de lua cheia ela me chamava a atenção para a beleza da lua e sua luz entrando em nosso quarto. Ela me ensinou a poesia do olhar...
Minha madrinha era uma mulher forte. Como não ser diferente. Mãe de 04 filhos de fato, porém mãe de muitos outros filhos que ela colocava debaixo de seus braços. Mãe também de minha mãe. Mãe das minhas irmãs. Minha mãe. Ela exalava maternidade. Ela exalava cuidado e atenção. Ela não era uma pessoa melosa...ela sabia dar carinho pelo olhar e principalmente pelos gestos. Minha madrinha, abriu as portas de sua casa assim que minha mãe se separou e fomos morar com ela. Sua casa era cheia de vida. Ali, aprendi, a me deixar levar pela alegria, pela vivacidade, por uma casa constantemente em movimento. 
Generosidade talvez fosse seu maior movimento de vida, o que aprendi uma terça parte somente. Minha madrinha tinha um jeito todo peculiar, falava suas verdades sem mandar algum recado, era sincera, mesmo quando tinha que chamar a atenção. Sincera, séria, brigava, falava, para logo depois, abrir um sorriso que confortava qualquer um de nós.
Presença marcante na minha vida desde cedo, eu sempre disse à mamãe que tive sorte dela ter escolhido a Bebeca pra ser minha dinda. Ela era louca por mim, eu sei... e eu sinto até hoje, que não dei tanto à ela como ela me deu. Mas acho que esse sentimento é natural quando se trata da relação filial que tivemos. De qualquer forma ela nunca pedia mais. Ela aproveitava a vida com o que tinha. 
Ela me ensinou a resistir a dor. Dinda viveu com dores por muitos anos. Sempre trazia um sorriso, sempre se movimentou, mesmo na cadeira de rodas, ela ia para o shopping, ela viajava com sua família, fazia compras, nos visitava... ela nunca se entregou à dor. Acho que Deus pensou realmente que não seria o caminho da dor que iria tirá-la dessa vida quando fosse a hora. E realmente não foi. A dor não venceu. Ela venceu a dor e deixou uma importante lição. 
Minha mãe era uma mulher forte. Demorei para decifrá-la. Minha mãe tinha uma vivacidade que sofreu grandes abalos, mas era tão grande, que mesmo assim, ela ainda mostrava sua força no final. Uma mulher corajosa para enfrentar a vida. Uma mulher que aprendeu coisas da vida fora do tempo e com atraso e que, mesmo assim, conseguiu se equiparar ao ritmo da vida. Ela me ensinou a dar valor ao trabalho. Ela me ensinou a gostar de aprender e de ensinar. Minha mãe era uma professora nata, dava suas lições com brilho no olhar, uma imposição na voz que eram marcantes. Muitas vezes eu apontava o tom professoril, quando ela era tomada por uma energia e começava a me explicar conceitos dos quais ela estudava. Minha mãe me ensinou a me transformar.
Minha mãe, já disse isso antes, me ensinou a ser mais humana ao mostrar suas imperfeições. Minha mãe também me ensinou a ser generosa, ela era um exemplo disso. Morei com ela durante 38 anos. Ela me permitiu crescer ao seu lado e me permitiu aceitar e rejeitar partes suas para que desenvolvesse a minha crítica. Talvez ela nem soubesse o que estava fazendo, mas a forma como ela se entregou a nossa relação me deixou muitas lições. Minha mãe nunca foi autoritária, e com isso me ensinou o valor de reconhecer uma autoridade moral e nunca uma autoridade fabricada pelo poder do mundo. Isso também abriu portas para o questionamento do que, realmente, nesse mundo tem valor para mim. Eu poderia ficar aqui o dia todo falando de tudo que eu aprendi dela e de minha vó e da minha Dinda, mas, pensando bem, ainda tem uma lição que elas me ensinaram e talvez a maior delas, que foi sobre o amor. Foi me ensinar que o amor não tem um jeito específico e generalista de ser...que as pessoas amam, cada uma do seu jeito, que reconhecer esse amor é uma dádiva e que não existem regras e nem momentos certos para amar e que o amor pode ser generoso e fartamente distribuído, ele nunca fica escasso.  
Minhas 03 mulheres: fortes, generosas, justas, amorosas. Agradeço à Deus a oportunidade delas terem me dado colo, amor, amizade e principalmente, cuidado.
Um Feliz Dia das Mães Vó!
Um Feliz Dia das Mães Dinda!
Um Feliz Dia das Mães Mamãe!
Esse é o meu presente para vocês!

terça-feira, abril 12, 2011

Tarot do Personare

Olhem a carta que saiu pra mim hj no Personare


Que tal se permitir ter mais prazer neste momento, Luciana? Há quanto tempo você não faz coisas de que gosta? Que tal relaxar e curtir mais a vida? O 3 de Copas surge aqui como arcano conselheiro, pedindo-lhe que permita abrir-se ao prazer, para que ele flua na direção do mundo e este lhe atenda, possibilitando situações felizes, festas, namoros (ainda que não necessariamente sérios), em suma, coisas que lhe distraiam e lhe permitam ter dias agradáveis, ao redor de quem você ama. Saia com os amigos, conheça novas pessoas, permita-se rir, conversar, conhecer os outros... estar no mundo! Você sentirá sua alma mais leve e perceberá as coisas a partir de uma perspectiva mais ampla.




Conselho: Deixe o prazer fluir!

Só quero saber: quem vai pagar minhas contas?!?!







segunda-feira, abril 11, 2011

Rioooooooooooooooo

ASSISTAM!!!!! ASSISTAM!!!!!

Visualmente lindo!!! Emocionante!!! Engraçadíssimo!!! Empolgante!!!
Já viram que eu adorei não é???

Corram!!!

quinta-feira, abril 07, 2011

E agora?

Tem estudos que afirmam que quando uma pessoa se suicida, familiares ficam mais suscetíveis a cometerem o mesmo ato. Porque? Questão genética? Não. Imagino que seja o se dar conta de que aquilo é real e que pode acontecer com você, dentro de sua família, não com o seu vizinho. A partir do momento em que um fato entra como realidade possível para qualquer um de nós faz parte de nossas experiências como possíveis.

Ao saber da tragédia da hoje no Rio de Janeiro, eu me entristeci e me preocupei muito. Até o dia de hoje, isso não existia na realidade brasileira. Só que agora existe. Aconteceu, infelizmente. E pode acontecer de novo. Porque agora, para os brasileiros, isso vai ser possível. Agora, a partir de hoje, ir à escola vai se tornar algo um pouco menos seguro do que estão acostumados. Isso me preocupa muito. Como evitar? Não sei. Imagino que tudo o que os especialistas estão falando podem ajudar, mas quando um ser humano resolve matar dessa forma, pouco se pode fazer para evitar. E ainda mais, infelizmente, no mundo do crime existem as imitações. Dar idéias sabe?

Como evitar ? Continuo não sabendo. Diminuir o acesso às armas? Sim. Deve. Mas não vamos ser ingênuos, deve ser muito fácil obter arma quando se tem um propósito. Campanhas e ações contra bullying? Sim. Óbvio que irá ajudar, óbvio que se evitar a violência sofrida desde tenra idade ajuda a formar um adulto com mais consciência e empatia a outro ser humano. Empatia sim, empatia é se colocar no lugar do outro, é se identificar com o outro. Uma pessoa que consegue desenvolver esse sentimento dificilmente irá fazer algo tão violento com outra pessoa. Colocar detector de metal nas escolas também? Sim. Mas acabo de escutar por um especialista em segurança que isso não segura um firme propósito. Se o rapaz de hoje fosse impedido de entrar na escola, ele cometeria os assassinatos na rua mesmo. Ele estava decidido. Como evitar? Infelizmente não tem receita, nem aqui, nem nos EUA, nem na Rússia, nem na China, nem em lugar algum. Porque isso fala de outra coisa. Fala da sociedade, mas fala de um conjunto de fatores, que somados, em um momento produz um assassino como esse de hoje.

Acontece também outro fator, como não acreditamos que isso pode acontecer conosco, não levamos tão a sério sinais de que alguém próximo pode estar no caminho para ser o autor de uma chacina como essa. A irmã falou que ele, desde o ano passado, falava que queria destruir aviões e que tinha sido submetido a um tratamento psicológico, mas que tinha abandonado. Não vou culpar a família até porque imagino que jamais eles pensariam que ele era capaz de um ato desses, não é por aí, mas é bom ficarmos mais atentos a sinais que escapam do ordinário. Ao contrário do que diz o lugar comum, cão que ladra morde sim. 99% das pessoas que se matam, falam antes que vão se matar... talvez a estatística possa ser comparada aos assassinatos. Esse jovem falou da sua vontade de matar. Será que se tivessem levado a sério, isso impediria algo? Não sei. Nós nunca vamos saber o real motivo, qual a sua patologia, nem o que poderia ter acontecido para evitar, o que poderia ter sido feito para evitar tudo isso. Não saberemos. Infelizmente aconteceu. 

Acho que vou ter que conviver com essa sensação de insegurança que me assola de vez em quando, exatamente quando me dou conta de que o mundo é impreciso e as pessoas, mais imprecisas ainda.

terça-feira, março 29, 2011

Para a mamãe...


Mãe,


Hoje nos encontramos em um tipo diferente de aniversário teu. 01 ano. 01 ano que você se foi. E me vem a cabeça a imagem de uma criança de um ano, que ainda está descobrindo o mundo e se assustando com as coisas novas, sentindo, muitas vezes chorando, muitas vezes se alegrando, a criança nessa fase, é só vida. E é assim mãe que passamos esse ano, voltamos a ter as emoções desta criança: foram muitos os momentos que nos assustamos, ao passar o ano inteiro sem você, todas as datas foram como se tivessem sido pela primeira vez. Os nossos primeiros aniversários sem você, os primeiros telefonemas que não lhe damos e não recebemos, o primeiro Natal e Reveillon, os primeiros sucessos que não compartilhamos, os primeiros conselhos que não recebemos, o primeiro dia das mães que não tivemos, enfim mãe, os primeiros 365 dias sem você. Tudo foi visto sob um novo olhar. O olhar da tua ausência, não da tua falta, pois não tem nem como já que a tua presença viva ainda é imensurável para todos nós.


Você não tem ideia de quantas homenagens você recebeu, de todas as manifestações de carinho que recebemos em teu nome, de abraços que recebemos enviados à ti. Você não tem idéia de quantas pessoas declararam amor, gratidão, admiração, amizade...


Não teve um dia que não pensamos em ti. Não teve um dia que não vimos em nossas mentes a imagem do teu sorriso, não teve um dia que não escutamos tua voz. Não teve um dia que não falamos contigo mentalmente te contando o que contaríamos se ainda estivesses aqui.


Mas também mãe, ao passar dos dias, a nossa fé se transformou e nos deu como presente, a resignação. Estamos resignados, pois sabemos que, com certeza, com os teus méritos, estás num lugar de paz e que no final, todos nós voltaremos a nos reencontrar. Deus tem sido muito generoso com a gente na tua ausência.


E só temos o que agradecer à Ele por ter nos dado a oportunidade de compartilharmos a nossa vida contigo como teus filhos muito amados.


Nós te amamos.


Seus filhos, Andréa, Luciana, Patricia e Robertinho
Em, 27/03/2011

quinta-feira, março 17, 2011

quarta-feira, março 16, 2011

Um corpo como menino....Meu corpo como menina...


Segunda eu comecei a fazer acupuntura. Levei mais ou menos umas 9 agulhadas. Foi bom, meu pé ficou dando choque. Gostei.
Estou fazendo pra dor. Quero me anestesiar. Meu corpo anda dolorido, pode ser por tudo: excesso de peso, má postura, noites mal dormidas, colchão velho, sandálias de salto, fibromialgia, artrose, artrite (não que eu tenha essas 3 últimas coisas) apenas que, se eu for em cada especialista terei um veredicto diferente.
Se pararmos pra pensar, tudo pode causar dor.
E cansei, resolvi que iria tentar melhorar. Fui fazer acupuntura. No dia seguinte, já vi sinais de melhoras, foi quando tive a seguinte conversa com um amigo:
  • Marcus, comecei a fazer acupuntura...
  • Foi???? porque???
  • pra dor...
  • E tu sentes dor???
  • Sinto...
  • Eu não sabia..eu já estava pensando que irias dizer que a tua vizinha sente dor e então foste fazer já pra garantir... (bem hipocondríaco isso)
  • Eras, tu me achas tão hipocondríaca assim?
  • Não...não...(fez-se um silêncio estranho) então, ele continua: - onde tu sentes dor?
  • Na coluna, dei um jeito dormindo...e no pé...sabes que já começou a funcionar? Todos os dias de manhã eu acordo entrevada, dura, com dor...
  • (me interrompendo)...ahhhh Lu, mas isso é assim mesmo, é da idade já...
  • (assustada, pois ele é atleta) tu também sentes? Acordas assim?
  • Sim, acordo todo entrevado...(não foi bem essa palavra que ele usou, mas para evitar trocadilhos, coisa que estou aprendendo com um outro amigo, eu troquei a palavra)
    (01 minuto de silêncio de alívio só por saber que ele, atleta, sente o mesmo..)
  • continuo: então... hoje eu acordei diferente, já não mais tão entrevada e sem dor.
  • Rsss..foi mesmo? Sabes o que eu acho? Acho que nosso corpo é um menino carente que fica querendo chamar a atenção. Então qualquer atenção que damos pra ele, ele fica lá...todo feliz...
    Por mim a conversa encerraria ali. Sabe quando você nunca mais escutou algo novo e de repente vem algo assim tão singelo, tão inesperado? Foi a melhor analogia que já escutei... e hoje acordei pensando: como melhorar a carência desta criança que é meu corpo.
    Obrigada Marcus.

domingo, novembro 28, 2010

Família - Francisco Azevedo

"Família é prato difícil de preparar. São muitos ingredientes. Reunir todos é um problema, principalmente no Natal e no Ano Novo. Pouco importa a qualidade da panela, fazer uma família exige coragem, devoção e paciência. Não é para qualquer um. Os truques, os segredos, o imprevisível. Às vezes, dá até vontade de desistir. Preferimos o desconforto do estômago vazio. Vêm a preguiça, a conhecida falta de imaginação sobre o que se vai comer e aquele fastio. Mas a vida, (azeitona verde no palito) sempre arruma um jeito de nos entusiasmar e abrir o apetite. O tempo põe a mesa, determina o número de cadeiras e os lugares. Súbito, feito milagre, a família está servida. Fulana sai a mais inteligente de todas. Beltrano veio no ponto, é o mais brincalhão e comunicativo, unanimidade. Sicrano, quem diria? Solou, endureceu, murchou antes do tempo. Este é o mais gordo, generoso, farto, abundante. Aquele o que surpreendeu e foi morar longe. Ela, a mais apaixonada. A outra, a mais consistente.



E você? É, você mesmo, que me lê os pensamentos e veio aqui me fazer companhia. Como saiu no álbum de retratos? O mais prático e objetivo? A mais sentimental? A mais prestativa? O que nunca quis nada com o trabalho? Seja quem for, não fique aí reclamando do gênero e do grau comparativo. Reúna essas tantas afinidades e antipatias que fazem parte da sua vida. Não há pressa. Eu espero. Já estão aí? Todas? Ótimo. Agora, ponha o avental, pegue a tábua, a faca mais afiada e tome alguns cuidados. Logo, logo, você também estará cheirando a alho e cebola. Não se envergonhe de chorar. Família é prato que emociona. E a gente chora mesmo. De alegria, de raiva ou de tristeza.



Primeiro cuidado: temperos exóticos alteram o sabor do parentesco. Mas, se misturadas com delicadeza, estas especiarias, que quase sempre vêm da África e do Oriente e nos parecem estranhas ao paladar tornam a família muito mais colorida, interessante e saborosa.



Atenção também com os pesos e as medidas. Uma pitada a mais disso ou daquilo e, pronto, é um verdadeiro desastre. Família é prato extremamente sensível. Tudo tem de ser muito bem pesado, muito bem medido. Outra coisa: é preciso ter boa mão, ser profissional. Principalmente na hora que se decide meter a colher. Saber meter a colher é verdadeira arte. Uma grande amiga minha desandou a receita de toda a família, só porque meteu a colher na hora errada.

O pior é que ainda tem gente que acredita na receita da família perfeita. Bobagem. Tudo ilusão. Não existe Família à Oswaldo Aranha; Família à Rossini, Família à Belle Meuniere; Família ao Molho Pardo, em que o sangue é fundamental para o preparo da iguaria. Família é afinidade, é a Moda da Casa. E cada casa gosta de preparar a família a seu jeito.



Há famílias doces. Outras, meio amargas. Outras apimentadíssimas. Há também as que não têm gosto de nada, seriam assim um tipo de Família Dieta, que você suporta só para manter a linha. Seja como for, família é prato que deve ser servido sempre quente, quentíssimo. Uma família fria é insuportável, impossível de se engolir.



Enfim, receita de família não se copia, se inventa. A gente vai aprendendo aos poucos, improvisando e transmitindo o que sabe no dia a dia. A gente cata um registro ali, de alguém que sabe e conta, e outro aqui, que ficou no pedaço de papel. Muita coisa se perde na lembrança. Principalmente na cabeça de um velho já meio caduco como eu. O que este veterano cozinheiro pode dizer é que, por mais sem graça, por pior que seja o paladar, família é prato que você tem que experimentar e comer. Se puder saborear, saboreie. Não ligue para etiquetas. Passe o pão naquele molhinho que ficou na porcelana, na louça, no alumínio ou no barro. Aproveite ao máximo. Família é prato que, quando se acaba, nunca mais se repete."

sexta-feira, outubro 22, 2010

Clarice, sempre Clarice

Acabo de ler um texto dela, ela que sabe letrar o que eu tão veladamente sinto. E esse texto me tocou:

Pertencer


Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.


Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça.


Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora, como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma freira: ela pertence a Deus.


Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim. Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso.


Com o tempo, sobretudo os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de "solidão de não pertencer" começou a me invadir como heras num muro.


Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço. Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética. É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção, evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os meus sentimentos.


Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa.


Quase consigo me visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e no entanto premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.


No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei. Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.


Mas eu, eu não me perdôo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga que por vergonha não podia ser conhecido.


A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está no deserto e bebe sôfrego os últimos goles de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto mesmo que caminho!



Clarice Lispector

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver respostas... continuarei a escrever..."
Clarice Lispector

quinta-feira, outubro 14, 2010


Toda poesia vem e é esmagada pelo dia a dia...

Será que é preciso se ausentar pra poetar?

E voa a sensação de leveza

e fica o peso da borboleta que não pode voar....

sexta-feira, setembro 10, 2010

A PAIXÃO DE ARTEMÍSIA


"Se você deixar, o mundo lhe atormenta.
 Então, não deixe."
(Artemísia, no livro A Paixão de Artemísia de Susan Vreeland)

Lucretia - Pintura em óleo de Artemísia Gentileschi.

Ainda Jogando Fora I

....ainda jogando emails fora...e me surpreendendo com o que ando lendo... me certificando mais uma vez o quanto acumulo coisinhas... imaginando quando vai acabar e o que vou guardar....mas...acima de tudo: uma sensação maravilhosa de liberação, de limpeza... meio inexplicável...mas muito bom...

Hoje é sexta, 10 de setembro de 2010, e ainda estou na pasta de enviadas.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Jogando Fora I

Resolvi começar esse processo com o mundo virtual, é o que está as mãos agora. Já tive uma época viciada em internet, hoje não passo mais do que alguns minutos em alguns sites, só no meu email que eu fico conectada mais tempo...No meu email que é do yahoo, existem hoje: 29 pastas específicas por área de interesse; na pasta de entrada estou hoje com 336 email lidos, na pasta de enviadas estou com 3910 emails; no Spam 31; lixeira 245; rascunho 8 que somando com todos os emails que ainda estão arquivados na pasta (3073) dá um total de emails arquivados de 7632 emails!!!!!!!! Estou chocada, acabei de descobrir que estou arquivando nada menos de sete mil, seiscentos e trinta e dois emails!!!! Bem, não posso contabilizar como 100 coisas se for contar email por email. Só agora na conferência eu já joguei fora uma pasta de arquivo que estava lá obsoleta e sem nenhum arquivo. Então já tenho só 28 pastas. Bem. Vou lá. Mãos à obra. Tenho meia hora para começar a me desfazer e vou começar pela pasta de enviadas.

Até mais!

JOGAR (DOAR, VENDER) 100 COISAS FORA!!!!

Adoro revistas. E livros. Tenho sonhos secretos com eles. Desde ter uma banca de revistas até trabalhar em uma editora, quando me pagariam para ler livros e emitir opiniões. Esse mês comprei a Casa Claudia, Claudia, Vida Simples, Bons Fluidos. Na Bons Fluidos teve uma reportagem que me chamou a atenção: Jogue 100 coisas fora. A proposta não é bem jogar fora e sim se desapegar e se desfazer de 100 coisas da sua vida. Há muito tempo oscilo entre olhar minhas coisas e pensar em diminuir a quantidade e períodos de compras e aquisições de ainda mais coisas. Já chegou num ponto em que não sei tudo, exatamente tudo o que tenho dentro de casa. Tem coisas que eu me lembro só muito raramente. Passo uns 3 meses sem lembrar e de repente lembro de algo e vou a procura. Penso nisso desde que li o livro Paula da Isabel Allende em que ela relata o processo de morrer da filha dela e que antes dela adoecer (a Paula), ela começou a se desfazer de várias coisas, inclusive ficando com pouquíssimas roupas, acho que só o suficiente para sair sempre vestida, o que é importante. Eu acho. A mãe (Isabel A.) pensou que talvez, intuitivamente, Paula já soubesse o que poderia lhe acontecer e começou a diminuir o tamanho de sua bagagem. Bem, aviso aos navegantes que não ando com intuição alguma sobre a minha saúde, logo, isso pode ser encarado como uma esperança de que ainda vou viver um tempinho, e quero isso. Mas a comichão de tornar meu mundo mais clean, mais vazio e arejado está me deixando com ganas de apertar o botão do desliga e ficar só focada nisso: uma grande faxina em tudo - casa, mundo virtual, mente e corpo - e resolvi começar e dividir com vocês tudo isso. Acho que não será tão fácil, sou uma pessoa que acumula tudo que gosta, leia-se: sou extremamente apegada as pessoas, sentimentos, sensações, também coleciono revistas que amo, figuras no computador que me inspiram, emails que acho interessantes (e percebi que os guardo desde 2007), fotos, textos que vou imprimindo, objetos de decoração, objetos que tem algum significado emocional para mim. Chego a conclusão que minha casa, meu mundo virtual, minha mente e lógico que meu corpo, todos eles juntos, contam a minha história. E agora, vou começar a editá-la, deixando ir algumas coisas que não fazem mais sentido ficar. E isso vale pra tudo.
Até chegar a 100.
Mãos à obra.

terça-feira, agosto 31, 2010

A vida não é uma maravilha prozaquiana


Certa vez um amigo disse que acreditava que nos países mais pobres tinha uma espécie de histeria coletiva que nada mais era, para ele, as festas que ocorrem pelas cidades: sabe naqueles dias de domingo as pessoas em bares e em portas de casa dançando? Ah! Ainda disse mais, que as pessoas mais pobres eram as mais felizes pois elas não entravam em contato com a realidade, a pseudofelicidade aumentava proporcionalmente com as dificuldades e o sofrimento que ele imaginava que elas sentem. Ele fez uma espécie de diagnóstico social relacionado a situação sócio-econômica das pessoas. Lembro que mentalmente eu neguei aquela informação, refutei, achei um absurdo e um quê preconceituoso...ou simplesmente não entendi o que ele quis me dizer.

Aquilo nunca saiu da minha cabeça, e manchou a autenticidade da alegria das pessoas, principalmente aquelas que eu vejo nas periferias dançando no final de um domingo. Falo sempre no domingo porque sempre pensei que essas pessoas aproveitavam até o finalzinho de seus finais de semana, já que domingo pra mim, principalmente a noite, precisa de um desfribilador de agonizante que é.

Mas ao mesmo tempo sempre que penso nisso vem a raiva. Ou melhor, nem sei se é raiva ou é indignação. Fico realmente indignada e preocupada ao perceber o rumo que as pessoas estão tomando hoje ao analisar o mundo ou elas mesmas. Tudo está sendo diagnosticado. Tudo está sendo explicado e minuciosamente devassado. E ao entrar na teorização das experiências, o indivíduo perde de vivê-las e somente vivê-las e ponto.

Então a alegria deles é sinônimo de fuga de uma realidade massacrante? Ué! E não pode ser uma alegria genuína num domingo a tardinha em que não se entra em contato com o dia a dia mesmo, o dia de folga? Não pode na segunda, este mesmo ser dançante e rodopiante, voltar a sua rotina e dar conta de sua vida inclusive entrando em contato com ela? Tá. Tudo bem. E se a rotina for muito ruim, se a vida da pessoa for quase insustentável, que mal que faz se ela consegue uma boa forma de se defender de sua realidade? Faz. Faz mal. Faz bem também. Eu que não vou julgar. Faz mal pois a pessoa ao não entrar em contato com a sua realidade não terá a oportunidade de mudá-la já que ela não irá existir. Faz bem, pois se a pessoa não consegue ver a luz no fim desse túnel então ela torna a vida dela um pouco mais fácil.

Uma outra coisa que me chama a atenção, outro dia um outro amigo que tinha passado por uma situação de perda significativa me disse que estava preocupado e que achava que estava deprimindo pois estava muito triste... e só tinha uns 15 dias que o fato tinha ocorrido. Calma... disse à ele... quanto tempo faz? 15 dias... eu respondi: - e você está estranhando sua tristeza ao ponto de já diagnosticar como depressão? Seja paciente, você está triste, é muito natural ficar mal numa situação dessas. Acolha a sua tristeza...e etc.. Enfim, eu percebo que as pessoas já não conseguem conviver com alguns sentimentos que são da vida.

A vida não é uma maravilha prozaquiana. Ela é linda, gostosa, mas em alguns momentos também é feia, insípida ou amarga. Viver pode ser contra indicado pra quem tem medo de sofrer. E com isso as pessoas fazem de tudo, até mesmo se "patologizarem" para escapar do sofrimento. Não se iludam, só tem medo de sofrer quem já sofreu ou quem está sofrendo, pois quem nunca sofreu (será que existe?) não irá saber o que é. E a gente não tem medo do que não existe.

Viver vai trazer alegria e também tristeza, vai trazer dor e também alívio, vai trazer aventura e também tédio, vai trazer dúvidas e também sensações de certezas, vai trazer paz e também vai trazer muita inquietação, vai trazer crescimento e também vai trazer estagnação, vai trazer amor e também vai trazer indiferença, vai trazer tranquilidade e também vai trazer angústia, vai trazer perdas e também encontros....

Existe um movimento cultural muito grande de tentativa de não entrar em contato com o que nos faz sofrer, de não permissão e acolhimento ao próprio sofrimento e do outro, e com isso aumenta o consumo de medicações como antidepressivos e ansiolíticos, aumenta a solidão, aumenta a anestesia coletiva perante o lado sombra do mundo e aumenta em muito o próprio abandono.

Calma... não precisa correr, fugir, se diagnosticar, tem momentos em que nós vamos sofrer... e tem momentos em que vamos ser felizes... isso não é sinônimo de depressão e nem de mania (transtorno bipolar)...serão simplesmente momentos da e na vida.




segunda-feira, agosto 23, 2010

Baú Velho


Estava eu agora lendo o blog do Marcus, http://papo-solto.blogspot.com/ um post chamado Arte da vida e Arte da Guerra I... em que ele discorre sobre a seletividade da nossa memória... é fato.

Agora enquanto eu ia lendo, uma imagem mental veio a minha mente... um baú...imagino o meu baú daqueles antigos, com madeira escura e forte, grossa e com tiras de couro e um fecho de ferro...imagino desgastado e gosto dele assim, não penso em pintar ou renová-lo, ele realmente é antigo e vai permanecer assim. Agora imagino também que ele seja grande, quase sem fundo e que lá dentro minhas memórias brinquem de roda, "pira se esconde", se extasiem de felicidade, se dobrem na dor, que elas briguem pra virem à tona ou pra se manterem escondidas.

Algum escritor ou escritora já disse que as memórias eram como trapos velhos, e como um trocadilho eu não lembro exatamente agora como e quem foi. Mas essa imagem sempre esteve na minha mente, trapos velhos...

Imagino meu baú cheio de trapos velhos, cada um de uma cor, com uma textura e tamanhos diferentes, mas também tenho peças de tecidos inteiros dobradas, outras que ficam esvoaçando no ar, de várias cores fortes e neutras, tenho trapos que se escondem de vergonha e outros que se exibem tentando emergir...
Além de trapos velhos vivem no meu baú cada boneca que eu tive na infância, um pintinho que sem querer matei com as mãos, os vestidos das festas juninas, a pedra que quebrou a cabeça da Patricia numa travessura com a vizinha, os penteados que a Gagá fazia no meu cabelo e o sabonete que ela usava quando ela mandava eu dar a "perna de bailarina" para ensaboar no banho, os "retratos" todos que tirei e alguns mais coloridos em que colocava a mão na cintura fazendo charminho, o elástico que me fez quebrar a perna...

Meu báu atual me soa como infinito, infinito no que contém, infinito nas trocas que as coisas de dentro fazem, infinito nas confusões e nos esclarecimentos. A sensação que eu tenho é que eles estão mais se divertindo lá dentro do que outra coisa qualquer... Parece que minha memória se encontra numa grande festa, onde crianças brincam até ficarem bem suadas, param... tomam uma água...e voltam a correr e gritar novamente...