sexta-feira, setembro 10, 2010

A PAIXÃO DE ARTEMÍSIA


"Se você deixar, o mundo lhe atormenta.
 Então, não deixe."
(Artemísia, no livro A Paixão de Artemísia de Susan Vreeland)

Lucretia - Pintura em óleo de Artemísia Gentileschi.

Ainda Jogando Fora I

....ainda jogando emails fora...e me surpreendendo com o que ando lendo... me certificando mais uma vez o quanto acumulo coisinhas... imaginando quando vai acabar e o que vou guardar....mas...acima de tudo: uma sensação maravilhosa de liberação, de limpeza... meio inexplicável...mas muito bom...

Hoje é sexta, 10 de setembro de 2010, e ainda estou na pasta de enviadas.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Jogando Fora I

Resolvi começar esse processo com o mundo virtual, é o que está as mãos agora. Já tive uma época viciada em internet, hoje não passo mais do que alguns minutos em alguns sites, só no meu email que eu fico conectada mais tempo...No meu email que é do yahoo, existem hoje: 29 pastas específicas por área de interesse; na pasta de entrada estou hoje com 336 email lidos, na pasta de enviadas estou com 3910 emails; no Spam 31; lixeira 245; rascunho 8 que somando com todos os emails que ainda estão arquivados na pasta (3073) dá um total de emails arquivados de 7632 emails!!!!!!!! Estou chocada, acabei de descobrir que estou arquivando nada menos de sete mil, seiscentos e trinta e dois emails!!!! Bem, não posso contabilizar como 100 coisas se for contar email por email. Só agora na conferência eu já joguei fora uma pasta de arquivo que estava lá obsoleta e sem nenhum arquivo. Então já tenho só 28 pastas. Bem. Vou lá. Mãos à obra. Tenho meia hora para começar a me desfazer e vou começar pela pasta de enviadas.

Até mais!

JOGAR (DOAR, VENDER) 100 COISAS FORA!!!!

Adoro revistas. E livros. Tenho sonhos secretos com eles. Desde ter uma banca de revistas até trabalhar em uma editora, quando me pagariam para ler livros e emitir opiniões. Esse mês comprei a Casa Claudia, Claudia, Vida Simples, Bons Fluidos. Na Bons Fluidos teve uma reportagem que me chamou a atenção: Jogue 100 coisas fora. A proposta não é bem jogar fora e sim se desapegar e se desfazer de 100 coisas da sua vida. Há muito tempo oscilo entre olhar minhas coisas e pensar em diminuir a quantidade e períodos de compras e aquisições de ainda mais coisas. Já chegou num ponto em que não sei tudo, exatamente tudo o que tenho dentro de casa. Tem coisas que eu me lembro só muito raramente. Passo uns 3 meses sem lembrar e de repente lembro de algo e vou a procura. Penso nisso desde que li o livro Paula da Isabel Allende em que ela relata o processo de morrer da filha dela e que antes dela adoecer (a Paula), ela começou a se desfazer de várias coisas, inclusive ficando com pouquíssimas roupas, acho que só o suficiente para sair sempre vestida, o que é importante. Eu acho. A mãe (Isabel A.) pensou que talvez, intuitivamente, Paula já soubesse o que poderia lhe acontecer e começou a diminuir o tamanho de sua bagagem. Bem, aviso aos navegantes que não ando com intuição alguma sobre a minha saúde, logo, isso pode ser encarado como uma esperança de que ainda vou viver um tempinho, e quero isso. Mas a comichão de tornar meu mundo mais clean, mais vazio e arejado está me deixando com ganas de apertar o botão do desliga e ficar só focada nisso: uma grande faxina em tudo - casa, mundo virtual, mente e corpo - e resolvi começar e dividir com vocês tudo isso. Acho que não será tão fácil, sou uma pessoa que acumula tudo que gosta, leia-se: sou extremamente apegada as pessoas, sentimentos, sensações, também coleciono revistas que amo, figuras no computador que me inspiram, emails que acho interessantes (e percebi que os guardo desde 2007), fotos, textos que vou imprimindo, objetos de decoração, objetos que tem algum significado emocional para mim. Chego a conclusão que minha casa, meu mundo virtual, minha mente e lógico que meu corpo, todos eles juntos, contam a minha história. E agora, vou começar a editá-la, deixando ir algumas coisas que não fazem mais sentido ficar. E isso vale pra tudo.
Até chegar a 100.
Mãos à obra.

terça-feira, agosto 31, 2010

A vida não é uma maravilha prozaquiana


Certa vez um amigo disse que acreditava que nos países mais pobres tinha uma espécie de histeria coletiva que nada mais era, para ele, as festas que ocorrem pelas cidades: sabe naqueles dias de domingo as pessoas em bares e em portas de casa dançando? Ah! Ainda disse mais, que as pessoas mais pobres eram as mais felizes pois elas não entravam em contato com a realidade, a pseudofelicidade aumentava proporcionalmente com as dificuldades e o sofrimento que ele imaginava que elas sentem. Ele fez uma espécie de diagnóstico social relacionado a situação sócio-econômica das pessoas. Lembro que mentalmente eu neguei aquela informação, refutei, achei um absurdo e um quê preconceituoso...ou simplesmente não entendi o que ele quis me dizer.

Aquilo nunca saiu da minha cabeça, e manchou a autenticidade da alegria das pessoas, principalmente aquelas que eu vejo nas periferias dançando no final de um domingo. Falo sempre no domingo porque sempre pensei que essas pessoas aproveitavam até o finalzinho de seus finais de semana, já que domingo pra mim, principalmente a noite, precisa de um desfribilador de agonizante que é.

Mas ao mesmo tempo sempre que penso nisso vem a raiva. Ou melhor, nem sei se é raiva ou é indignação. Fico realmente indignada e preocupada ao perceber o rumo que as pessoas estão tomando hoje ao analisar o mundo ou elas mesmas. Tudo está sendo diagnosticado. Tudo está sendo explicado e minuciosamente devassado. E ao entrar na teorização das experiências, o indivíduo perde de vivê-las e somente vivê-las e ponto.

Então a alegria deles é sinônimo de fuga de uma realidade massacrante? Ué! E não pode ser uma alegria genuína num domingo a tardinha em que não se entra em contato com o dia a dia mesmo, o dia de folga? Não pode na segunda, este mesmo ser dançante e rodopiante, voltar a sua rotina e dar conta de sua vida inclusive entrando em contato com ela? Tá. Tudo bem. E se a rotina for muito ruim, se a vida da pessoa for quase insustentável, que mal que faz se ela consegue uma boa forma de se defender de sua realidade? Faz. Faz mal. Faz bem também. Eu que não vou julgar. Faz mal pois a pessoa ao não entrar em contato com a sua realidade não terá a oportunidade de mudá-la já que ela não irá existir. Faz bem, pois se a pessoa não consegue ver a luz no fim desse túnel então ela torna a vida dela um pouco mais fácil.

Uma outra coisa que me chama a atenção, outro dia um outro amigo que tinha passado por uma situação de perda significativa me disse que estava preocupado e que achava que estava deprimindo pois estava muito triste... e só tinha uns 15 dias que o fato tinha ocorrido. Calma... disse à ele... quanto tempo faz? 15 dias... eu respondi: - e você está estranhando sua tristeza ao ponto de já diagnosticar como depressão? Seja paciente, você está triste, é muito natural ficar mal numa situação dessas. Acolha a sua tristeza...e etc.. Enfim, eu percebo que as pessoas já não conseguem conviver com alguns sentimentos que são da vida.

A vida não é uma maravilha prozaquiana. Ela é linda, gostosa, mas em alguns momentos também é feia, insípida ou amarga. Viver pode ser contra indicado pra quem tem medo de sofrer. E com isso as pessoas fazem de tudo, até mesmo se "patologizarem" para escapar do sofrimento. Não se iludam, só tem medo de sofrer quem já sofreu ou quem está sofrendo, pois quem nunca sofreu (será que existe?) não irá saber o que é. E a gente não tem medo do que não existe.

Viver vai trazer alegria e também tristeza, vai trazer dor e também alívio, vai trazer aventura e também tédio, vai trazer dúvidas e também sensações de certezas, vai trazer paz e também vai trazer muita inquietação, vai trazer crescimento e também vai trazer estagnação, vai trazer amor e também vai trazer indiferença, vai trazer tranquilidade e também vai trazer angústia, vai trazer perdas e também encontros....

Existe um movimento cultural muito grande de tentativa de não entrar em contato com o que nos faz sofrer, de não permissão e acolhimento ao próprio sofrimento e do outro, e com isso aumenta o consumo de medicações como antidepressivos e ansiolíticos, aumenta a solidão, aumenta a anestesia coletiva perante o lado sombra do mundo e aumenta em muito o próprio abandono.

Calma... não precisa correr, fugir, se diagnosticar, tem momentos em que nós vamos sofrer... e tem momentos em que vamos ser felizes... isso não é sinônimo de depressão e nem de mania (transtorno bipolar)...serão simplesmente momentos da e na vida.




segunda-feira, agosto 23, 2010

Baú Velho


Estava eu agora lendo o blog do Marcus, http://papo-solto.blogspot.com/ um post chamado Arte da vida e Arte da Guerra I... em que ele discorre sobre a seletividade da nossa memória... é fato.

Agora enquanto eu ia lendo, uma imagem mental veio a minha mente... um baú...imagino o meu baú daqueles antigos, com madeira escura e forte, grossa e com tiras de couro e um fecho de ferro...imagino desgastado e gosto dele assim, não penso em pintar ou renová-lo, ele realmente é antigo e vai permanecer assim. Agora imagino também que ele seja grande, quase sem fundo e que lá dentro minhas memórias brinquem de roda, "pira se esconde", se extasiem de felicidade, se dobrem na dor, que elas briguem pra virem à tona ou pra se manterem escondidas.

Algum escritor ou escritora já disse que as memórias eram como trapos velhos, e como um trocadilho eu não lembro exatamente agora como e quem foi. Mas essa imagem sempre esteve na minha mente, trapos velhos...

Imagino meu baú cheio de trapos velhos, cada um de uma cor, com uma textura e tamanhos diferentes, mas também tenho peças de tecidos inteiros dobradas, outras que ficam esvoaçando no ar, de várias cores fortes e neutras, tenho trapos que se escondem de vergonha e outros que se exibem tentando emergir...
Além de trapos velhos vivem no meu baú cada boneca que eu tive na infância, um pintinho que sem querer matei com as mãos, os vestidos das festas juninas, a pedra que quebrou a cabeça da Patricia numa travessura com a vizinha, os penteados que a Gagá fazia no meu cabelo e o sabonete que ela usava quando ela mandava eu dar a "perna de bailarina" para ensaboar no banho, os "retratos" todos que tirei e alguns mais coloridos em que colocava a mão na cintura fazendo charminho, o elástico que me fez quebrar a perna...

Meu báu atual me soa como infinito, infinito no que contém, infinito nas trocas que as coisas de dentro fazem, infinito nas confusões e nos esclarecimentos. A sensação que eu tenho é que eles estão mais se divertindo lá dentro do que outra coisa qualquer... Parece que minha memória se encontra numa grande festa, onde crianças brincam até ficarem bem suadas, param... tomam uma água...e voltam a correr e gritar novamente...

terça-feira, agosto 17, 2010

Retorno


Viagens são como paradas no tempo. Sempre me intriga estar agora aqui e, de repente, pego um bicho que tem asa e depois de mais ou menos duas horas estou em outro lugar, inacessível ao lugar de onde parti. O espaço e o tempo param no lugar de origem.
Nada ficou mais evidente do que isso hoje. Depois de uns 9 dias fora, entrei no meu carro, ainda estacionado no mesmo lugar, com tudo dentro do mesmo jeito que eu deixei, e, ao ligar o som, a música continuou exatamente do ponto que parou há 9 dias atrás. Ela começou da metade, e hoje, sabe-se lá de que ponto, retomo o ritmo.

terça-feira, agosto 03, 2010

Doll Face: narciso ou a cópia?




Estava eu me divertindo com o twitter quando me deparo com a seguinte pergunta da Márcia Tiburi: "Doll Face de Andy Huang (http://bit.ly/1jct) Nova versão do mito de Narciso?" , indicando o vídeo acima como o norteador da pergunta dela. Me coçou, gosto muito do mito do narciso, fala de paixão. A paixão nos ilude, afinal "Narciso morre na ilusão de ter encontrado a completude" (http://www.palavraescuta.com.br/textos/o-mito-de-narciso). Paixão não completa, paixão cria urgência e sempre mais urgência...


Mas ao olhar o vídeo, eu não vi nada de narciso, até tentei, mas não vi. Quer dizer, posso até tentar ver algo que possa lembrar no final, imaginando Narciso se afogando no lago, mas... foi forçado.


Acho interessante a idéia dela, mas vejo o contrário, Narciso se apaixona pela própria imagem, pela imagem que já existe e que ele ainda não tinha visto e quiçá nem soubesse ser dele. Ela, a boneca, não se vê refletida na televisão, ela vê uma imagem de uma mulher, que parece que achou interessante, e então, tenta ficar igual. Mal conseguiu ficar igual a primeira imagem, aparece uma outra imagem que requer ainda mais trabalho, mas mesmo assim, com afinco, e até trocando de olho, e ao mesmo tempo até criando um novo e copiado olhar, ela consegue ficar igual o que vê. Narciso não precisou mudar, Narciso se viu e estava pronto...ali...perfeito... e se enamorou, se apaixonou perdidamente pela própria imagem.


Essa boneca não se apaixonou, o olhar dela era mais obsessivo do que apaixonado (se bem que a diferença é tênue), ela tentou (obsessivamente) ficar igual, ela teve que se moldar, mudar sua aparência para chegar no que considerou o ideal e na busca desse ideal que foi ficando cada vez mais distante, ela se destruiu. O mais significativo foi ver, ao final, a maquiagem borrada dando a impressão de uma lágrima.


Não me remeteu ao narciso, me remeteu sim aos sacrifícios e a perda de identidade ao tentar copiar um padrão que talvez se torne inatingível e destrutivo. Prefiro pensar como Perls: "Nenhuma águia quer ser elefante e nenhum elefante quer ser águia. Eles se "aceitam", aceitam seu "ser". Não, eles nem mesmo se aceitam, pois isto significaria uma possível rejeição. Eles se assumem por princípio. Não, não se assumem por princípio, pois isto implicaria numa possibilidade de ser diferente. Eles apenas são. Eles são o que são."


O céu e o inferno do ser humano foi ter desenvolvido a consciência de si mesmo e a consciência do outro como um possível espelho crítico de sua imagem. Nós não temos lago que reflete a nua e crua verdade do que somos, nós temos o olhar do outro, que nos diz, as vezes amorosamente, as vezes cruelmente quem a gente é. E se perdidos estamos de nós, vamos atrás desses olhares que não cessam, até a destruição. Isso é tão louco, precisa ser medido, pois também nos constituímos humanos sob(ao) olhar de outro humano, como diria uma professora minha: uma mulher se constitui mulher sob(ao) olhar de um homem. E vice-versa e sob todos as variações possíveis.


Porém, quando nos falta o nosso próprio olhar, acabamos por colocar, tal qual a boneca, os olhos dos outros nos nossos e passamos a nos olhar tal qual. Acho que o segredo está em desenvolvermos o nosso próprio olhar e só então, deixar o olhar do outro nos dizer algo. Não sei. Eu acho.

domingo, agosto 01, 2010

Pra Voce Guardei O Amor - Nando Reis e Ana Canas




Quando eu me apaixonar de novo...vou cantar o amor que eu guardei pra ele... Será?

sábado, julho 31, 2010

O Clima de Hoje!

Autor desconhecido

quinta-feira, julho 29, 2010

Lar...

Acabei de chegar de um reencontro com um amigo meu que estava na estrada desde junho. Veio passar dois dias em Belém, e já vai pegar estrada de novo mas dessa vez por pouco tempo, semana que vem está aí. Mas não é bem isso o que eu vou falar. Ou melhor, talvez sim...ainda não sei muito bem...
Enfim, nesse mais de um mês que ele passou se atualizando no Rio, ele arranjou um tempinho para fazer um retiro espiritual com um grupo, numa comunidade ribeirinha, super afastada da capital. E quanto mais distante da capital, mais simples e natural a vida é. Pelo menos, eu acho...
De qualquer forma assim foi a experiência dele, ele começou a me descrever como era a comunidade há mais de cinco anos atrás e como está agora com o advento da energia elétrica e da famigerada e adorada televisão. Mas enfim, também não é bem disso o que vou falar. Talvez até seja, mas ainda estou vendo no que vai dar...
Enfim (de novo), ele me contou a forma de organização deles, da convivência na comunidade... como era bonito ver a transmissão de conhecimentos de pai para filhos e de mãe para filhas. Cada um transmitia à seus descendentes a sabedoria que rege o trabalho, que por sua vez, rege a vida em comunidade. Com descrições assim:
- são divididos como se fossem numa hierarquia de trabalho: alguns saem para pescar, outros, quando chegam os peixes, salgam para durar dias, outros fazem as redes de pesca, outros ordenham vacas para conseguir leite. Alguns cozinham o peixe, outros, se precisarem, pescam camarões e vão vender para comprar leite... "se na tua casa tiver leite e na da vizinha tiver café, vocês fazem um café com leite e tomam"...todos dizem que são parentes, basta você ser próximo vira parente, o equivalente, aqui em Belém a chamarmos de tia e tio os pais de nossos amigos... a ajuda é mútua, a comunidade funciona sobre e sob suas próprias leis morais...a noite, quando não tinham nada pra fazer, um visitava a casa do outro, ou ficavam em rodas pela comunidade com as crianças correndo, e todas as crianças eram cuidadas por todos os adultos...
Depois, como todo assunto, mudou. Começamos a falar sobre o desejo dele de morar sozinho e de uma dúvida que ele tem se ele vai conseguir sentir a casa que ele vai morar como um lar. E começou a dar um exemplo de uma tia que saiu da casa do pai, durante 11 anos morou em alguns lugares sozinha, mas quando pisou na casa do pai novamente sentiu "- aqui é meu lar". Apreensivo ele toma o exemplo da tia como uma possibilidade do que possa acontecer com ele. Dele não encontrar um lar fora da casa que sempre viveu com os pais...
Eu entendi a apreensão, é muito difícil a vida, ou sei lá quem ou o quê, definir um lar pra gente e assim seremos marcados o resto da vida por ele....o exemplo da tia dele me deixou também apreensiva, mas por outro motivo: eu não me senti assim. E comecei a pensar que ou eu sou uma desgarrada nata ou o conceito e o sentimento de lar é diferente para cada um... preferi ficar com a segunda hipótese.
O que aconteceu comigo, por exemplo, se eu for contar desde que nasci até o lugar que eu moro hoje, eu já morei em 11 lugares diferentes, eu brincava com a mamãe dizendo que ela era uma verdadeira cigana urbana, pois de uns anos pra cá, mal a gente tinha se acostumado a uma nova casa, quando víamos, ela já estava com a cuíra de mudança. Eu até comecei a me acostumar e curtir o ritual de passagem de um lar para outro. E não pensem que é fácil, pra mim pelo menos, era sempre muito difícil... Afinal, não é só você que transforma o lugar onde mora em lar e sim o lugar também te escolhe e te transforma como senhorio. Pelo menos, eu acho. Não acho só não, eu também senti e sinto isso...
Sempre que nos mudávamos eu passava por uma espécie de ritual de passagem. Me sentia por mais ou menos um mês em suspenso, como se eu não tivesse um lugar só meu, como se eu não tivesse um lar, como se eu não tivesse casa. Essas sensações me causavam muita angústia. Era ruim, até que me acomodova ao lugar e ele à mim.
Na minha última mudança, a mais significativa pois tinha resolvido morar sozinha pela primeira vez, eu senti isso, e senti medo...e muitas outras coisas... mas senti mais ainda a casa também me conhecendo. Me mudei e por um tempo me senti sem lar novamente, foi então que começamos a nos conhecer, eu e a casa, ela o meu ritmo e eu, o ritmo dela, os seus barulhos, por onde e que horário ela se tornava mais ventilada, mais agradável, em que momento ela começava a se aquecer, os barulhos que ela produzia, os barulhos do dia, o barulho do vento tentando entrar pela janela, o barulho do estalar da madeira das portas e móveis, a porta da rua se mexendo quando o vizinho mexe na porta dele, quantas e quantas vezes na primeira noite fui verificar se tinham entrado no apartamento, até que tranquei no meu quarto e deixei a casa resolver a suposta invasão... enfim (terceira vez), conhecer a variação na luz, o barulho da madrugada, da vizinhança, dos cães latindo ao redor, das crianças no colégio gritando "BOM DIA!!!" todos os dias às 7:15 da manhã... Ela também ia se acostumando aos meus horários, aos meus barulhos e ao meu ritmo, ao meu gosto em pendurar vários quadros e coisas na parede, ao pintar uma árvore no seu corredor, ao colocar minha coleção de imãs, meus livros, meus pincéis, meus  quadros, ao deixar a luz da cozinha acesa quando eu sentia medo, colocando cheirinho e ir tomando a casa para mim...
Quando ao final desse conhecer... quando eu já tinha aprendido muito sobre ela e ela sobre mim, eu pude dizer que eu tinha um lar. Eu tenho um lar. Um lar que dizem que é a minha cara...mas sei também que carrego um pouco de cada parede que me cerca... e pensando no que eu ainda vou colocar na parede ao lado da minha porta de entrada, deparo com a seguinte frase: lar é o lugar onde o meu coração está.

Pelo menos pra mim foi assim. Disso eu não acho, eu tenho certeza...
Esta é a árvore que eu pintei no corredor da minha casa.

terça-feira, julho 27, 2010

O Bêbado e a Equilibrista


Tem umas coisas que quando eu lembro eu fico realmente intrigada. Luciana, Andréa e Patricia (eu e minhas irmãs, antes dos irmãos existirem) e do outro lado Renata, Roberta e Rosana. Primas...Todas quase da mesma faixa etária. A Renata, por ser um pouco mais velha e por conta das aulas do terceiro ano, só encontrava conosco nos finais de semana. Assim como a mamãe, que na época, já separada há um tempo, estava estudando para fazer vestibular. Nós todas estávamos em Salinas, cuidadas pela vovó e pela tia Marilda (mãe das meninas). Nesta época ensaiávamos todas as noites o show de música e dança que apresentávamos para todos que vinham passar o final de semana. E impressionante como era muito sério para todas nós, eu me sentia uma verdadeira artista, só faltava o sucesso me descobrir e eu moraria nos palcos. Agora, o que mais me deixa intrigada era que nosso maior sonho, pasmem: era fazer uma viagem de navio... e nos apresentarmos nesse navio...cantando.... solenemente...e apaixonadamente... O Bêbado e o Equilibrista... (música ensaiada por nós exaustivamente em todos os aniversários da família). Muuuuiiitooo estranhooo...

domingo, julho 25, 2010

Reinauguração



Escrever sempre foi algo que eu fazia naturalmente e por necessidade. Até receber minha primeira crítica. Pintar também, eu sempre pintei sem medo, entregue. Até receber minha primeira crítica. Engraçado, eu também sempre tinha dito que a opinião dos outros não me abalava, até perceber o quanto essas críticas me influenciaram por esses anos. Eu nunca mais escrevi com liberdade e nunca mais pintei sem que um olho atrás de mim sempre balançasse a cabeça pesaroso... Me dou conta agora o quanto as críticas que foram tão corriqueiras e simples pesaram sobre mim. O quanto eu me tornei uma crítica feroz de mim mesma, de tudo que eu fazia com liberdade e me encarcerei na prisão do medo de não ser tão boa. E agora leio escritos de outros, vejo quadros e trabalhos de outros e penso em mim. Penso no que eu deixei de escrever, de ver e de pintar para o gozo do crítico que criei e alimentei ferozmente dentro de mim...aaaaahhhhh: DANE-SE!!!


Criei esse blog desde 03 de julho de 2006, fiquei surpresa quando vi que já tem 04 anos e a vergonha imperou solenemente até hoje pois quase nunca o divulguei. Até que comecei a produzir mais e timidamente divulguei para mais cinco pessoas, mas continuei produzindo e ando com muitas idéias, então comecei a perceber que o crítico ferrenho está agonizando e comecei a pensar numa espécie de reinauguração. Procurei uma amiga, Kiara Guedes, e começamos juntas a reconstruir a imagem do blog. Eu, desavergonhadamente, gostei muito do resultado. Inicia, agora, o império da semvergonha que reside dentro de mim.

Aos desavergonhados (novos e velhos) visitantes deste espaço: sejam bem vindos! Pois, "hoje é um bom dia para começar novos desafios." (Carlos Drummond de Andrade)




sexta-feira, julho 23, 2010

Fazendo as malas

Fonte: http://stipje.blogspot.com/
Estou fazendo as malas do formato antigo do blog e reconstruindo o novo. Conto com a ajuda da minha amiga Kiara Guedes dos blogs http://eguanao.blogspot.com/ e http://nesteinstante.com/ que adoro seguir... Alguns textos novos e semvergonhas estão no forno, e em breve, todos serão convidados para a reinauguração... Porque "navegar é preciso", a vida não!

quinta-feira, julho 22, 2010

Para Marcele, minha prima amada!


Tênis x Frescobol
Rubem Alves

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.

Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: ‘Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: ‘Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?\' Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.’ Leia + http://www.rubemalves.com.br/tenisfrescobol.htm

segunda-feira, julho 19, 2010



L´art surgit à mi-chemin de l'homme et de l'univers. L'homme se reconnaît en lui, y retrouve ses pensées et ses sentiments, en même temps qu'il y fait sien ce qui  l'entoure et n'est pas lui. La dualité irréductible de sa double expérience externe et interne se trouve enfin résolue. René Huyghe (1967)

A arte surge a meio caminho do homem e do universo. Nela, ele se reconhece, encontra seus pensamentos e seus sentimentos, ao mesmo tempo que a noção que o rodeia não é dele. A irredutível dualidade de sua dupla experiência (interna e externa) se faz finalmente resolvida. René Huyghe (1967)

Exerce (sempre mal) o poder...quem o tem!

- A hora que teu pai chegar, vou contar isso pra ele e ele vai te bater!!! A babá dizia ao garoto que aparentava uns seis anos de idade...

- Vou te quebrar os dentes!!! O mesmo garoto dizia para o irmão mais novo de uns três anos...

- Teu pai vai te bater pelo que você falou!!!  A babá tornava a repetir a ameaça...

E sempre que a babá falava isso, o irmão menor ficava repetindo a frase para o irmão ameçado que retrucava:

- Eu vou encher tua cara de porrada!!! Eu vou quebrar tua cara!!!

Um chute voou no ar e não acertou seu alvo... o menor ensaiou um chute que acertou no ameaçado...ele então revidou mas não conseguiu atingir totalmente o irmão menor...

A babá do seu alto posto...sorria... não sei se achava aquilo tudo engraçado..não sei se se divertia com seu poder... não sei se tinha algum senso do que estava acontecendo... não sabia o que os meninos estavam sentindo... apenas estava ali...assistindo prazerosamente o momento em que o maior poderia cumprir a promessa de quebrar a cara do irmão menor...

- Vou te quebrar a cara!!! Vou te arrancar os dentes!!! Ele repetia...

Chegou no térreo (finalmente para mim),a porta do elevador se abriu, e lá foram os dois e a babá encontrarem com a mãe, que sorria candidamente para os viznhos que passavam...

(o último dessa série de longas datas...)

...

Estava tentando estacionar quando a vi. Alta, morena, pele e osso de tão magra. No meio da rua, que era a casa dela, ela estava com as duas mãos em forma de concha no nariz, segurando um pano. E dançava...dançava sorrindo... Seus olhos estavam orbitados em um outro lugar. Eu que estava trancada em um silêncio patrocinado pelo ar condicionado do carro, pensei: nossa... como ela está hoje...totalmente tomada pela cola. Sensibilizada fiquei por aquela garota, dançando alegremente no meio da rua, sem tirar as duas mãos em forma de concha no nariz. Olhei para os lados e vi que todos a olhavam rindo de sua proeza. Não sei o motivo do riso, não sei se escárnio, não sei se compaixão, não sei...só os donos do sorriso é que poderiam dizer, mas eu não conseguia sorrir...Ela estava lá, gritando sua presença denunciadora em minha mente. Denunciando a desumanidade, denunciando o desamor, denunciando o descaso, denunciando a alegria fulgaz de uma cheirada logo ao amanhecer ou quem sabe denunciando um necessário processo de alienação de si mesma? Lembro que pensei que ela estaria ficando pior com o tempo, pois estava dançando no meio da rua, num dia chuvoso, sozinha... Foi então que passei por ela, desviando o carro e consegui estacionar, e quando saí do meu carro-aquário, precebi: um táxi estava ressoando seu som recém adquirido em uma promoção e ela dançava guiada por aquele som... pelo ritmo...percebi, com alívio, que ela não estava tão mal assim, estava apenas tentando mesmo se divertir.

(também de longas datas...)

Encontro

Cidade grande. Grandes avenidas.  Grandes prédios. Grandes calçadas. Grandes distâncias. Ela acordara como sempre: militarmente às sete. Levantou da cama sem saber nem quem era, seu corpo somente despertava quando a água gelada batia em seu corpo. Olhava no relógio: Nossa! Dormi demais! Sempre era assim... todos os dias... Se arrumava automaticamente e deixava a maquiagem para os intervalos. Pronto! Pronta! E saiu para a rua já impregnada pelo som e fumaça dos carros e pela estonteante avalanche de pessoas indo e vindo.
Ele acordara como sempre, atrasado e de ressaca. Como posso ter bebido tanto? Hoje eu páro de beber! Não adianta me ligarem, não atenderei as ligações, não aceitarei convites e me trancarei dentro de casa e pronto! Assim não bebo. Resolução tomada, foi ao chuveiro. A água gelada lhe deu um ligeiro tremor, como um choque gostoso, despertou seu corpo. Rápido se vestiu e saiu quase correndo. E então começou a caminhar. Foi quando a avistou, saindo de um prédio como se tivesse tonta pela mudança de luz e tom. Ela ainda apertava os olhos para se acostumar com a luz, ou talvez ainda quisesse fechá-los com sono. E foi então que ele viu ainda mais de perto, ela era linda, perfeita! Ele saia todas as noites  lhe buscando e ironicamente fora lhe encontrar de dia. Um dia perfeito. Enfeitiçado caminhou até a sua direção.
Ela fechando os olhos para se acostumar com a claridade repentina. Virou a cabeça e o viu. Bonito, olhando-a com uma expressão que a assustou. Não saiu correndo porque teve medo de ser chamada de histérica. Mas também não podia mais tirar os olhos dele. Se encontraram finalmente. Frente a frente. Olhos nos olhos. E... quando iam abrindo a boca para se falarem, foi então que a sirene descuidada de um carro de polícia os despertou. Eles despertaram. Ele olhou acima da cabeça dela. Ela olhou os sapatos dele. Ficaram naquela dança coincidente quando um tenta desviar do outro. Sorriram e disseram ao mesmo tempo: licença. E conseguiram: cada um seguiu seu caminho, ela estava atrasada e ele com uma baita ressaca.

* mais um escrito de mto tempo.