terça-feira, fevereiro 13, 2007

Estou inquieta como um ferro em brasa sem ter o que passar.

13.02.2007 - Lu
Odeio amarras
Seguram minha caneta, minha língua, meus desejos, meu bem querer e meu mal querer.
Amarram minha saliva, minha boca, meu corpo, minha obsessão.
Amarram o desejo de gritar ou de sussurrar no ouvido de quem tenho desejo.
Desejo sem voz, surdo, cego e irracional.
Sabe o pior?? O pior é ter consciência, é ter a total consciência de que é algo que não cabe
e mesmo assim, desejar.
Vulcão. Larvas. Queimaduras.
Assim que isso acaba.

LCB 13.02.2007

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

“...ao escolher palavras com que narrar minha angústia,
eu já respiro melhor,
a uns Deus quer doentes,
a outros quer escrevendo

Adélia Prado
Ao mesmo tempo em que existe em mim uma alma empreendedora, quase tecnológica, existe em mim uma alma mundana. Uma alma desgarrada do tempo e do espaço, anarquista.
Ao mesmo tempo em que me enquadro nas necessidades econômicas criadas pelos humanos e sofridas pelos mesmos, existe em mim uma alma que se rebela e questiona esse sistema.
Ao mesmo tempo em que existe em mim uma alma que adora a tecnologia, poder ver e falar instantaneamente por meio de uma tela, existe em mim uma alma que prefere o contato face a face.
Sou duas, sou milhares, sou ninguém.

Luciana 17.01.2007

sexta-feira, fevereiro 09, 2007


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."


Existe uma Vitalidade, uma Força Vital, uma Energia, uma Vivacidade que é Traduzida em Ação por Seu Intermédio, e como em Todos os Tempos só Existiu uma Pessoa como Você, Essa Expressão é Única, Se Você a Bloquear Ela Jamais Voltará a se Manifestar por Intermédio de Qualquer Outra Pessoa, e Se Perdera.
Martha Ghahan


Dançando no Fluir do Tempo

Trabalhar com a improvisação – no universo das artes – é estar no campo da entrega. Improvisar é aceitar a cada respiração, a transitoriedade e a eternidade. Podemos até programar o que vai acontecer no dia seguinte ou no momento seguinte, mas não sabemos se vai acontecer e como poderá acontecer. Na medida em que nos sentimos seguros do que vai acontecer trancamos as possibilidades futuras, nos isolamos e nos defendemos contra as surpresas essenciais, tão importantes para o processo de criação artística. Entregar-se significa cultivar uma atitude de não saber, nutrir-se do mistério continuo em cada momento, que é certamente surpreendente, e sempre novo. Quando nos livramos das idéias preconcebidas que nos cegam, somos vitalmente impulsionados por cada circunstância a viver o momento presente: o presente total, e nada mais do que o presente. Não apenas uma idéia, mas uma questão de vida ou morte, a partir do qual podemos aprender a confiar, acreditar que o mundo é uma perpetua surpresa em perpetuo movimento, um convite à criação.
Qualquer bom artista (ator – dançarino), possui inúmeros truques que pode servir quando se sente em situação de risco. Mas para improvisar você precisa abandonar esses truques, entrar no vazio e aceitar riscos, ate mesmo de dar com a cara no chão de vez em quando, só assim podemos levantar e seguir em frente. A vida criativa é uma vida de riscos. Nada voltará a correr da mesma maneira, tudo acontece apenas uma única vez na história do universo.

(a Querida Lika me enviou esse texto...achei magnífico).

Momento Carpi II

"Há pouco tempo, Vicente, de 4 anos, falava errado o nome de sua irmã, Mariana, 13 anos. Dizia "Maliana".
Uma manhã acordou ansioso:
- Preciso ligar para minha mana.
Perguntei o que tinha acontecido:
- Aprendi a falar Mariana, MA-RI-A-NA. Ela tem que saber. Eu chamava a pessoa errada, agora vou chamar a certa. "
Carpinejar

Momento Carpi

"...Antecipa o fim porque não está disposto a recomeçar..."
Carpinejar

"... o amor tem a mania da sincronia. Pune quem se antecipa ou chega atrasado."
Carpinejar

"...Dependência não se discute, arruma-se qualquer desculpa para mantê-la..."
Carpinejar

"...Esperar é também uma forma de caminhar..."
Carpinejar

"...Infelizmente os homens e as mulheres são predadores nos relacionamentos, mais preocupados em abater a ave do que voar com ela. Não se abrem para não se machucar. Vive-se uma sociedade com medo da dor, com casais encerrando histórias de modo prematuro para não sofrer. E não há como se comover sem a contrapartida da ferida. Magoar-se é decorrência da sinceridade, da vulnerabilidade, da entrega."
Carpinejar
"Um verso de Rimbaud sempre me ilumina quando estou indeciso entre falar a verdade ou me censurar para o melhor momento: "por polidez, perdi minha vida". "
Carpinejar

Estranhamento

O mundo me estranha. Eu estranho o mundo. Não somos feitos um para o outro.
Luciana

quarta-feira, dezembro 20, 2006


Querido Amigo,


Agora estou pensando no que lhe escrever. Há duas horas atrás estava eu em uma festa. Festa com música, boas companhias, comida boa e farta. Pessoas interessantes. Pessoas nem tão interessantes, se bem que estou pensando sob que ótica é o "interessante" e percebo que é impublicável. Então, até duas horas atrás estava em uma festa e agora lembro de Clarice quando escreve que a busca do prazer nessas situações de festa são ilusórias. Confesso que depois, quando a minha preguiça pós-festa passar, eu vejo melhor o texto pois acho que estou deturpando a Clarice e não quero que ela se revire no túmulo. Se bem que Clarice faz mais o estilo de quem riria com um sarcasmo bem autêntico a uma interpretação errônea de seus escritos. É, não podemos deixar de lembra que, escritos são para o mundo. E o mundo faz o que quiser do que é de posse dele.
Então, estou dando voltas só pra dizer que há duas horas estava em uma festa e agora estou no meu quarto, meu (hoje) doce quarto com uma insônia que me faz morrer de sono mas que não me deixa dormir. Foi então que resolvi te escrever. Não que você me dê sono... mas...pensando bem... a perspectiva de te escrever, ou melhor, te escrever foi o único recurso que percebi que poderia me fazer dormir e bem.
Já enchi uma página de carta e ainda não disse a que vim, talvez esteja enrolando, mas também pode ser que eu não tenha nada a dizer. Me sinto quase sempre orbigada não só a dizer como também, a dizer as coisas "certas nos momentos certos". Quero me desobrigar dessa função. Pesa. Quanta prepotência me pré-ocupar com isso. Agora mesmo quero te escrever assuntos interessantes, coisas importantes e não estou escrevendo nada...ops...estou sim: escrevendo palavras. E palavras que se unem perdem o seu significado unitário para dar um sentido à união. Como deve ser difícil para algumas palavras que, soltas, livres, possuem significados marcantes, indivizíveis, imponentes, inconstestáveis, e que, ao se unir à uma frase, seu sentido é questionado, perde a força, mesmo cumprindo sua utilidade maios, se perdem nas águas da união para formar frases que muitas vezes não são do seu tamanho único.
Como seria nossa comunicação se só existissem palavras soltas? Se as palavras se recusassem a se unir em prol das frases? Sem verbos de ligação, sem união espacial e temporal...coisas como do tipo: de que cada um só poderia dizer uma palavra a cada três minutos, para que, temporalmente, elas não pudessem formar frases.
Quanto silêncio haveria em cada conversar. E ao mesmo tempo quanto sentido cada palavra. E agora esou no silêncio. Como será que eu me comportaria diante de você se eu tivesse que ficar a cada uma palavra, três minutos de silêncio? Será que te olharia mais e por inteiro? Será que baixaria os olhos de vergonha e disfarçaria olhando o relógio para marcar o tempo? Será que eu pensaria na próxima palavra? Ou será que a cada dez segundos mudaria a próxima palavra? Será que o tempo em silêncio me faria mudar de idéia? Beckett dizia já: o que eu falaria se eu tivesse voz? Eu pergunto: o que eu falaria se eu só tivesse uma palavra a dizer após o silêncio?
O que é o silêncio? Ele existe?
Está dando certo. Ao mesmo tempo que estou com vontade de mudar o rumo desta missiva. estou com um sono de fechar os olhos. Às vezes funciona igual a contagem de dores de parto: uma contração à cada dez minutos. No meu caso, estou fechando os olhos a cada dois minutos. Ainda não dá para parar de te escrevre. Ainda lerás o que está na minha mente e que coloca holofote no meu sono e palavras e que ainda não me deixam dormir. Preciso fechar os olhos a cada segundo e ainda mais, como numa contração demorada, fechá-los e premanecer com eles fechados por mais tempo que eu levaria para fechá-los novamente.
Será que é um parto? O que vai nascre quando eu fechar os olhos?
Engraçado, terceira folha de carta. Dei agora para contar quantas folhas escrevo, uma espécie de vaidade...esquisita...eu sei. Mas algo soa grandioso: ah!!! Hoje escrevi umas cinco páginas para um amigo. Parece-me de uma importância... Vaidade, pura vaidade, que não vai me servir de nada para dormir, só para me criticar. A não ser que eu começasse a tomar calmantes para garantir oito horas de sono diárias para restaurar a beleza da minha cútis, como manda os figurinos de "beleza". Mas isso ainda (será que algum dia?) não é do meu departamento de desejos.
Deitei a cabeça agora, acho que vou me despedindo. Despedidas de carta são legais......
Ih!!! Fechei os olhos por um bom tempo. É melhor me despedir. Parafraseando Clarice: bom dia meus amigos, o sonho vai nascer!!!
Meu amigo, até a próxima: "insônia ou carta".
Luciana


Ameaçaram pisar nela.
Ela se apavorou. Seu corpo tremia todo inundado de um medo e um sentimento de que ninguém a livraria desse mal. Pensou em arrancar suas partes. Mas logo tirou da cabeça essa idéia: chega de deixar suas partes pelo caminho. Queria-se inteira. Mas não queria ser machucada, já o fôra muito. Não pisaram só no pé dela. Pisaram na perna para que ela não se sustentasse. Pisaram na virilha para que ela não mais se entregasse. Pisaram na barriga para que ela não mais gerasse. Pisaram nos seus braços para que eles não mais envolvessem. Pisaram no pescoço para dividir seu corpo de sua mente. Pisaram na boca para que não mais desejasse. Pisaram no nariz para confundir os odores. Pisaram nos olhos para não mais espelhar a si mesma no outro. Pisaram em sua mente para atordoá-la. E por fim, não satisfeitos pisaram em seu coração para que ela tivesse medo, muito medo de continuar amando. Com o tempo, muito lentamente ela está desamassando suas marcas, lambendo suas feridas, regando com lágrimas suas dores. Às vezes se engana e sai por aí: estou curada! Para cair na esquina como fruta madura e ser lembrada de que ainda não. Então quando ameaçada URRA! Urra de medo e de dor. Tudo de novo? Urra! Urra para afastar o pesadelo que assola a sua alma e faz o dia escurecer como um pântano negro. Urra pedindo socorro! Urra para assustar, para afastar, para urrar!
E então, com os urros vem a culpa.A culpa por inteiro. E então o seu próprio algoz entra em cena e repisa uma por uma de suas partes. Afunda-as, chafurda-as no urro de lamentações.
E então volta a deformação. Tudo errado, tudo fora do lugar, tudo inútil.
Ameaçaram-na.
E foi uma brincadeira.
Mas ela não sentiu como se fosse. Repisaram em seu corpo disfarçando através de sorrisos e depois do silêncio da culpa e da ignorância.
Ameaçaram-na. Ela reagiu. Defendeu-se do seu próprio medo. Acusaram-na. Acharam demais o que ela fazia. Ela urrou! Depois se calou e se fechou em culpa sobre si mesma. E agora chora, só chora. (13/09/2006 às 00:30)

domingo, dezembro 17, 2006

Uma menina que sonhava muito. Sonhava quando dormia, sonhava quando acordada, sonhava quando falava, sonhava em silêncio, sonhava só e acompanhada. Sonhava com imagens, sonhava com palavras. Sonhava.
Sonhava coisas boas como um vestido branco a balançar em um campo de girassóis e seus cabelos emoldurados em um chapéu com um laço branco que caia até a sua cintura e teimava em querer voar com o vento. Sonhava coisas ruins que lhe davam medo e a faziam sentir-se em uma noite escura e fria em frente a uma casa de madeira morta que rangia com o vento como se quisesse sussurrar em seus ouvidos palavras do mal e de medo.
Sonhava acordada quando, ao acordar, o mundo lhe parecia hostil, de uma hostilidade que lhe cortava em duas. Uma que tinha que estar lá e a outra que se ausentava de si mesma a sonhar. Acordada sonhando também quando seus olhos registravam seus desejos. Desejos ditos e não ditos. Desejos, amante de sua vontade. Sonhava para realizar seus desejos, e, no entanto, para não matá-los sonhava. Desejos realizados não são mais desejos.
Sonhava quando falava. Sonhava com as palavras. Palavras que eram músicas em seus ouvidos, intrigantes caminhos de sonhos. Palavras que feriam e a faziam sonhar. Palavras soltas, cheias de significados e palavras unidas para eternizá-la. Falava e quanto mais falava sonhava. Falava também, e quanto mais falava, mais se aterrorizava pois se afastava de seus sonhos e já não os retia na memória onírica de seus desejos. Falava, e palavras faladas, trazem a realidade. E então, falava, falava mentiras para preservar o sonho.
Sonhava em silêncio. Um silêncio como o barulho da madrugada sonolenta do campo quando todos parecem dormir, sonhando, e o mundo recai sobre si mesmo com o peso de seu mutismo. Sonhava em silêncio pois só encontrava em si mesma a testemunha para seus sonhos, não que não quisesse partilhá-los, mas era uma maneira de retê-los. O silêncio trás consigo possibilidades infinitas para sonhar.
Sonhava sozinha, como um ser que se vê perante o mundo sem que reconheça a si próprio no outro e o outro em si. Sozinha quando se abandonava tentando viver o sonho de outra e então não era mais ela.
Sonhava ao se abandonar. Sonhava ao se entregar a solidão que basta por estar inteira consigo mesma. E, então, sonhava acompanhada. De vez em quando partilhava fragmentos de seus sonhos com outros sonhadores que zombavam de sua inquietude infantil de sonhar. Sonhar para quê? Ela queria sonhar e, de vez em quando, encontrava sonhadores e dividiam sonhos. Às vezes se sentia diminuída pelo tamanho do sonho do outro. Às vezes se sentia grande pois seu sonho era um gigante e espelhava nos olhos do outro o momento exato da consciência de sua pequenez. Era uma satisfação quase sádica, porém inútil, fútil. Não era o tamanho do sonho que importava e sim, sonhar.
Sonhava com imagens. Imagens que falavam com ela. Que clamavam sua presença, seu olhar carregado de deslumbramento pela emoção. Imagens que se significavam por si mesmas e passavam pelos olhos dela como damas no final da tarde vestidas com seus trajes de passeio e nariz empinado. Imagens pomposas e orgulhosas de si mesmas. Que tinham vida própria e a convidavam para sonhar ainda mais. Ela então sonhava, e sonhava mais ainda quando estas imagens uniam-se as palavras. Então seus sonhos ganhavam corpo. Vida. Ar. Respiravam por dentro, por fora, em volta dela como um vento que chega com o firme propósito de trazer movimento e levantar sua saia. E ela sonhava....
Lu C. B. (sem-vergonha em 11.09.2006)


quarta-feira, novembro 15, 2006

às vezes é difícil se olhar no espelho.
Logo que olho, meu primeiro movimento é procurar marcas.
Marcas que me deixam feia: como espinhas, cravos, rugas, sinais do tempo, manchas e outras que invento...
falei com uma amiga sobre isso e ela me confirmou que faz o mesmo.
Fiquei intrigada. Então fiz uma enquete.
E todas fazem o mesmo. Fazem bem mais do que isso a medida que o espelho aumenta na ampliação da imagem.
Pq?
Por outro lado penso: essas marcas contam a minha estória...as nossas estórias...
Outro dia li num livro que a autora ensinava as pessoas a fazerem arranjos florais e ela escolhia justamente as folhas que tinham marcas como buracos, algumas com a coloração já amarronzada, amassadas...ela dizia que tinha uma razão..que essas folhas tinham vivido.
Tinham uma estória para contar. Cada buraco, cada imperfeição, era uma estória. E com essas folhas o arranjo não seria apenas bonito. E sim teria
VIDA
(postado pela sem vergonha que anda atacada!!!)

segunda-feira, novembro 13, 2006

Encontros e Desencontros

Estranha sensação.
Descompasso. Desencontro.
Às vezes a pessoa chega na hora errada, às vezes você chega na hora errada para ela.
Às vezes a pessoa chega, entra na sua vida e vai sem pedir licença ou dizer adeus.
Às vezes é você quem faz isso e não diz porque.
Às vezes a pessoa entra na tua vida, mexe, balança, desarruma tudo e depois coloca tudo no lugar como para apagar seus rastros.
Às vezes você chega, desarruma e tem preguiça de arrumar.
Às vezes você chega um ano, um mês ou um dia adiantado.
E a pessoa um ano, uma vida atrasada.
E às vezes parece que a pessoa chega. Mas ela finge chegar. Ela não quer.
E você fica pensando que ela chegou e quer.
às vezes você pode não querer. Não é o tempo, não é a hora, não tá legal. E ela chega.
Então vem a bagunça.
E nesse vai e vem do tempo
Será que vive-se?
Será que encontram-se?
Será que permitem?
às vezes você procura a pessoa como um espelho e ela não reflete a sua imagem.
às vezes você procura refletir a imagem dela mas não consegue, ela fica fora de foco.
Às vezes a pessoa se perde, envereda por caminhos que não estão na tua direção.
Às vezes você não se encontra em nenhum caminho.
E nesse vai e vem de rumo
Será que vive-se?
Será que encontram-se?
Será que permitem?
Será que caminham?
Pode ser, mas como?

(Sem vergonha)

quarta-feira, novembro 08, 2006

"...Estranha relação é a que temos com as palavras. Aprendemos de pequenos umas quantas, ao longo da existência vamos recolhendo outras que vêm até nós pela instrução, pela conversação, pelo trato com os livros, e, no entanto, em comparação, são pouquíssimas aquelas sobre cujas significações, acepções e sentidos não teríamos nenhumas dúvidas se algum dia nos perguntássemos seriamente se as temos. Assim afirmamos e negamos, assim convencemos e somos convencidos, deduzimos e concluímos, discorrendo impávidos à superfície de conceitos sobre os quais só temos ideias muito vagas e, apesar da falsa segurança que em geral aparentamos enquanto tacteamos o caminho no meio da cerração verbal, melhor ou pior lá nos vamos entendendo, e às vezes, nos encontrando..."
(José Saramago)
"Não há quem não feche os olhos ao comer, não há quem não feche os olhos ao cantar a música favorita, não há quem não feche os olhos ao beijar, não há quem não feche os olhos ao abraçar. Fechamos os olhos para garantir a memória da memória. É ali que a vida entra e perdura, naquela escuridão mínima, no avesso das pálpebras. Concentramo-nos para segurar a dispersão, para segurar a barca ao calor do remo. O rosto é uma estrutura perfeita do silêncio. Os cílios se mexem como pedais da memória. Experimenta-se uma vez mais aquilo que não era possível. Viver é boiar, recordar é nadar. Escrevo na água, no vento da água. O passado sem os olhos fechados é como uma roupa enrugada. Sem corpo. Sem as folhas dos plátanos."
Carpinejar
"Uma mulher de trinta anos tem atrativos irresistíveis para um rapaz. Com efeito, uma jovem tem ilusões, muita inexperiência, e o sexo é bastante cúmplice do amor, ao passo que uma mulher conhece toda a extensão dos sacrifícios que tem a fazer. Lá onde uma é arrastada pela curiosidade, por seduções estranhas à do amor, a outra obedece a um sentimento consciente. Uma cede, a outra escolhe."

Balzac
Amadureci a covardia em sarcasmo.
Posso rir do sofrimento.
Mistérios existem para simular profundidade.
Sou rasa, fútil. Não reverencio a primavera,
a mais sádica das estações.
Desde a infância, ela floresce minha asma.

Posso adiar a morte, nunca o nascimento.
É impossível cortar a semente.

Carpineja